
Évelin e Rogério
*Fotos: Livaldo Costa
Ela morava em Campo Grande (MS). Ele, em Lorena (SP). Ela era estudante de Comunicação Social, com especialização em Jornalismo, na Universidade Católica Dom Bosco. Ele estudava Engenharia Química na Escola de Engenharia de Lorena/USP. Em comum, o gosto pelas conversas via internet.
Évelin e Rogério se conheceram há dez anos, ao trocarem algumas ideias pelo Internet Relay Chat (IRC). Hoje, ela é repórter e produtora do programa “Minuto Deus Proverá”, da TV Canção Nova, e autora do blog Jovem Líder. Ele faz doutorado em Biotecnologia na USP. E, em março, eles completaram 7 meses de vida matrimonial.
Há muito tempo ouvimos falar de pessoas que se conheceram pela internet e começaram um relacionamento. Poucos são os que conseguem manter a química virtual na vida real. E, com o surgimento de casos de abusos cometidos por criminosos que usam a internet para ganharem a confiança de suas vítimas, as salas de bate-papo perderam um pouco a credibilidade junto aos internautas.
Na entrevista abaixo, Évelin e Rogério contam como se conheceram e o que foi preciso fazer para vencerem os desafios e conquistarem um relacionamento de sucesso.
DPT: Como foi o primeiro contato?
Évelin: Rogério e eu nos conhecemos no antigo (nossa e muito antigo) Internet Relay Chat (IRC), em março de 2001. Eu ia completar 18 anos e o Rogério tinha acabado de fazer 22 anos. Depois passamos por todos os programas de bate-papo online, como os chats de sites, o ICQ, até chegarmos ao MSN. Eu até gostava do “I-cê-quê”, especialmente do barulinho engraçado e inconfundível da “buzinha” para entrar no programa e o tal “óou” que avisava quando alguém nos chamava para conversar.
DPT: Vocês estavam lá nesse site para quê? Para encontrar a cara-metade?
Évelin: No IRC, eu estava com mais um casal de amigos quando conheci o Rogério. Mas nós três conversávamos com umas 10 ou 15 pessoas ao mesmo tempo. Estava no auge do bate-papo online e todo mundo queria conhecer gente nova. As conversas eram sempre muito simples. Não imaginava encontrar a minha cara-metade num site como esses, era mais para passar o tempo. Mas o papo do Rogério me chamou mais atenção e acabei fazendo um e-mail só para poder mandar para ele. Detalhe, demorei quase um mês para abrir o tal e-mail. Tinha esquecido!
Rogério: De forma alguma estava no IRC para procurar uma namorada, principalmente uma cara-metade. Estava apenas para conhecer pessoas. Era muito legal na época pois era o início de tudo, a internet não era tão difundida no Brasil, até porque poucas pessoas tinham acesso. Era uma novidade ficar conversando com alguém de longe pela rede e a conversa era muito divertida pois conversávamos de tudo: gostos, desejos, vontade de morar em outro lugar, conhecer novos lugares. Eu conversava simultaneamente com ela e muitas outras mulheres, mas ela me chamou muito a atenção pela forma diferente de escrever, sua simpatia nas palavras e o modo de encarar a vida. Fui me apaixonando por ela aos poucos. Nos anos 90, o ICQ virou moda no Brasil e ajudou ainda mais meu contato com a Évelin, pois era mais rápido com os chat em tempo real. Você conseguia ver a pessoa digitando e não tinha como ficar pensando se enviaria ou não uma mensagem. Tenho saudades daquela época… (risos)
DPT: Onde vocês moravam quando se conheceram?
Évelin: Eu morava em Campo Grande (MS) e o Rogério em Lorena (SP). Exatamente 1.323 km (Fonte: Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias – ABCR) e viagem de ônibus dura, em média, 17 horas.
DPT: Vocês já se consideravam namorados pela internet?
Évelin: Não no primeiro momento. Mesmo porque tanto eu, quanto ele, tínhamos um certo receio. Na minha região estava uma onda de sequestros de pessoas que tinham se conhecido usando essa ferramenta e a mídia explorava o assunto, assustando as famílias. Meus pais morriam de medo da tal internet. Então, marcamos um dia para nos encontrar na net. Mandei uma foto que achei de uma modelo: cabelos longos, loira, olhos azuis e magra. Lindíssima! Claro né? Modelo! Alguém totalmente diferente de mim. Mas o Rogério confiou. Mandou uma foto dele, em sua casa e outra tocando violão em seu quarto. Eu já comecei a ver que era um rapaz legal.
DPT: Contaram para parentes ou amigos? O que eles disseram?
Évelin: O Rogério contou para o pai dele que ele conversava com uma menina na internet, mas não deu muito crédito. Eu contei apenas para uma amiga que estava conversando com alguém. Muitos me disseram que eu era meio doida acreditando num “carinha da net” e que era bobagem.
DPT: Depois de quanto tempo de conversa pela internet que vocês foram se encontrar na vida real? Quem teve a iniciativa?
Évelin: Após 3 meses que nos conhecemos, conversamos pela primeira vez ao telefone. Fomos nos encontrar após 6 meses. Até então não tinha desmentido a foto da modelo, mas já tinha mandado uma minha. A iniciativa de nos encontrar foi do Rogério.
DPT: Onde vocês se encontraram? Como foi? O que passou pela cabeça antes do encontro?
Évelin: Na época, o Rogério não estava trabalhando. Pediu dinheiro emprestado ao pai para viajar. Foi com o valor contado da passagem de ida e de volta e alguns trocados para as emergências. Passei a noite praticamente em claro pensando em tudo que podia acontecer na viagem e também no encontro. Coisas de mulher. Se iria gostar de mim, da minha aparência, do meu jeito… No primeiro encontro me vesti de uma forma um pouco diferente: com uma calça de moleton meio rasgada, blusão, chinelo de dedos e prendi o cabelo. Estava horrível. Parecia que tinha acabo de acordar. Mas minha filosofia era: “se ele me achar bunitinha assim, imagina quando estiver toda arrumada”. E até que deu certo! (risos) As primeiras palavras não precisaram ser ditas, apenas nos abraçamos por alguns minutinhos e depois falei: “nem acredito que você está aqui, que é real”.
Rogério: Nossa passou muita coisa pela minha cabeça… Ficava pensando no quanto eu estava maluco em viajar 1.300 km pra conhecer uma menina-mulher de 18 anos. Digo menina-mulher porque ela aparentava uma menina com a cabeça de uma mulher formada. Eu sou uma pessoa muito reservada e foi como uma libertação pessoal poder sair de tão longe, do interior de São Paulo, e ir conhecer uma mulher em outro estado. Interessante também foi que minha mãe morou durante um ano na cidade de Aquidauana (MS), quando ela tinha 17 anos. Ela me dizia que no Mato Grosso do Sul era só selva, que não era muito civilizado por lá… (risos) Fiquei apavorado quando observava pelo ônibus que tinha apenas campos em ambos os lados da estrada, que se perdiam no horizonte. Foi um alívio ver a capital chegando. Por fim, acabei indo conhecer uma mulher de uma cidade muito próxima de onde minha mãe tinha morado e ela depois de alguns anos tornaria minha esposa… Acho isso muito doido! (risos)
DPT: Vocês moravam longe um do outro, se viam raras vezes, e mesmo assim continuaram o relacionamento. Algum de vocês pensou em desistir?
Évelin: Nos víamos apenas nas férias de julho e dezembro, quando dava. Já passamos quase oito meses sem nos ver por conta de trabalho e estudo. Namorar à distância não é nada fácil, não recomendo para ninguém. Só nós sabemos o que passamos nesse tempo longe. Não foi apenas a saudade e a distância, tinha também muitos amigos e familiares falando que poderia ser um relacionamento sem futuro real. Isso desanimava às vezes. Com isso, claro, pensamos em desistir. Mas graças a Deus isso não aconteceu!
DPT: Depois desse primeiro encontro na vida real, quanto tempo vocês namoraram?
Évelin: Namoramos por cerca de 7 anos e, exatamente no dia em que comemorávamos nosso sétimo ano, resolvemos ficar noivos. Foram mais 2 anos. E em setembro deste ano, completaremos 1 ano de casados. Ou seja, são 10 anos de relacionamento, desde o primeiro “oi”.
DPT: De quem partiu a ideia da Évelin ir morar em Lorena?
Évelin: Decidimos juntos. Eu queria fazer pós-graduação em São Paulo e o Rogério acabou mandando meu currículo para empresas do Vale do Paraíba.
DPT: Quais os planos para o futuro?
Évelin: São muitos… Mas esperamos o tempo de Deus para cada uma das nossas metas.
DPT: Teve alguém que achava que esse relacionamento não iria dar certo? O que essa pessoa pensa hoje?
Évelin: Teve uma amiga minha da faculdade que um dia, quando comecei a namorar com o Rogério, disse-me: “Ah, desiste. Esse namoro nunca vai dar certo”. Pouco antes do nosso casamento, encontrei-a e ela me disse: “Eu me enganei. Eu não imaginaria que poderia dar certo. Admiro a determinação de vocês”. Achei muito legal!
Rogério: De minha parte poucas pessoas sabiam que eu estava tendo um relacionamento com uma pessoa distante, pela internet. Era tabu isso e todos gostavam de tirar um sarro de quem namorava assim. Meus pais e muitos familiares encaravam com respeito, mas sentia no fundo um pouco de ironia quando perguntavam… (risos) Mas encarei numa boa tudo isso, até quando ela veio para minha cidade conhecer minha família toda. Meus amigos acharam e acham o que aconteceu conosco super diferente e muito legal, pois, por mais comum que seja hoje em dia um relacionamento pela internet, é pouco comum dar certo e virar casamento.
DPT: Algum conselho para quem está procurando um amor nas redes sociais?
Évelin: Cuidado! O que era há 10 anos, hoje é completamente diferente. A quantidade de pessoas é muito maior e também o acesso a informações sigilosas e pessoais pode ser feito em qualquer lugar e por qualquer um. Não é aconselhável, por exemplo, num primeiro contato ir sozinha. É sempre bom levar uma pessoa junto e ir a um local público. Enfim, namorar à distância não é fácil. É muito dolorido. Querer certa coragem e determinação. Acreditar que pode haver um futuro no relacionamento e, principalmente, no amor que cada um sente.
Rogério: Acredito ser possível sim encontrar alguém pelas redes sociais mas acho mais perigoso nos dias atuais. O acesso ficou mais fácil e hoje temos que encarar isso com mais cuidado. Conhecer bem antes de ir a um encontro, trocar telefonemas por algum tempo é essencial. Encontrar com a pessoa pela primeira vez em lugar público também torna seguro o encontro. Agora, eu aconselho a procurar alguém mais pertinho… (risos) Porque você sofre demais com uma pessoa longe. Ver 3 vezes por ano e por alguns dias é muito cruel para o coração e não desejo esse sofrimento para nenhum casal. Então, se for namorar com alguém de outro estado, pensa bem viu! Vai gastar com muitas viagens e a conta tefônica fica enorme! (risos)
